Memória: Caderneta Militar de meu avô.

Guardei a Caderneta Militar de meu avô João Glycério Coghi como uma relíquia de família.Ele serviu o Exército Brasileiro de maio de 1922 a março de 1923.
Naquele tempo as anotações eram feitas com letra manuscrita e bonita, legível, perfeita, coisa que os de hoje acham um instrumento da Idade da Pedra.
O meu avô, o “Gri”, contava que casou com minha avó (ele com 21 e ela com 16 anos) e foram morar no meio do mato, próximo a cidade de Campo Mystico, atual Campestrinho (MG). O serviço militar foi até lá pegar o bicho pra servir, deixando minha avó sozinha, e ele até gostou do seu Regimento, pois era bom corredor e participava das competições esportivas do Batalhão. Em duas delas ele se saiu bem, levando o 1.º e o 2.º lugares (este último “porque antes havia corrido 32 Km para mandar uma mensagem de um quartel a outro e quando chegou na competição estava cansado”). As medalhinhas ele mostrava bastante faceiro pra gente.
É bacana resgatar certas memórias. Aliás, é muito bom a gente poder dizer que tem alguma coisa pra se lembrar.”O povo que não conhece a sua História tende a repeti-la”
A vida na caserna foi muito boa para meu avô, assim como foi para muitos outros jovens que não tinham aonde cair morto. Naquela época o pessoal dava importância ao patriotismo, à educação, à disciplina. Era puxado, ralavam muito, mais saíam preparados: alguns aprendiam marcenaria, outros contabilidade, datilografia, outros ofícios. Ninguém saía pior do que quando tinha entrado.
Eu vejo um ponto comum entre a vida de meu avô e a minha vida, pois em um determinado ponto, a vida militar me deu amparo também. Fiz meus estudos em escola pública, inclusive a Faculdade, muitas vezes sem ter dinheiro para comer ou comprar algum livro. Quando me formei, prestei concurso público e passei, ficando 4 meses em curso de adaptação no Campo dos Afonsos (1982). Posso dizer que foram 4 meses de paz em minha vida: tinha roupa para vestir, comida para comer, uma cama limpa, um local para estudar, muito exercício físico e muita companhia. Conheci gente de muitos lugares e aprendi muitas coisas nestes 4 meses.
Assim como meu avô, a vida militar no quartel foi um momento de trégua em meio à uma guerra familiar e íntima.
Com muito carinho guardo seu binóculo, sua lanterna de carbureto, sua caderneta militar, sua plaina (ele era carpinteiro).
Por mais que falem mal dos militares, a vida na caserna representa muitas vezes a única oportunidade de um jovem se aprumar na vida.
E eu digo com toda certeza: ninguém sai de lá pior do que quando entrou.

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